O PAPA FRANCISCO E O DESTAPE DA PANELA DE PRESSÃO DA HISTÓRIA

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O desaparecimento formal da URSS e do (mal) chamado “Campo Socialista” do Leste Europeu, assim como a defecção da maioria das direções (não da militância) dos partidos comunistas e socialistas do mundo, deixou aberta uma enorme crise no campo do marxismo. Inclusive honestos revolucionários, do campo da cultura, da ciência e da sociedade em geral “questionaram o marxismo”, colocando em dúvida o materialismo dialético. Isso se expressou também em nossa IV Internacional quando alguns hoje ex-camaradas acabaram seguindo a burocracia soviética dos tempos de Gorbachov, que, com a “perestroika”, queria desarmar o estado operário, o que permanecia do estado operário nas massas soviéticas. Para isso precisava de tempo e espaço para impor uma “política de transição”, só que, como era para retroceder na história, o “relojoeiro” Gorbachov (como o qualificamos desde 1986) não teve o sucesso pretendido. Porque era preciso desarmar o Estado Operário na sociedade, nas massas soviéticas e também na função exercida pelo Exército Vermelho.

Nós tocamos uma luta desigual contra esta postura de defecção em todo mundo, começando pelos renegados do próprio posadismo, onde isso se desenvolvia de forma tão desigual e combinada que, mesmo os que honestamente se equivocavam (e todos tem direito e oportunidade de depois fazer a autocrítica), aplaudiam raivosa e submissamente o “gorbachovismo” como sendo a “regeneração do Estado Operário Soviético”, quando na verdade era a negação dela.

Agora, o leitor pode estar se perguntando o que isso tem a ver com o Papa Francisco. TEM TUDO A VER, porque é desde este momento histórico que a Igreja Católica Apostólica Romana, mas também a Ortodoxa, e as outras, como a Islâmica e o Judaica, começam a revisar seriamente seu papel e suas perspectivas reais de sobrevivência em um capitalismo que, em sua fase superior e última (Lênin) arrasa com tudo que tem a ver com a cultura e com a própria vida.

Esse movimento dentro das Igrejas é captado pelo imperialismo e seu comando estratégico da corporação das 5 Irmãs nos EUA, que então desenvolve uma ação tão arriscada politicamente quanto necessária para eles: gerar conflitos religiosos na URSS, e na Rússia que a continua sob outra forma mas sem perder sua base social de massas soviética.

Com essa ação imperialista nascem as correntes “religiosas” que, mundo afora, vão desde o terrorismo religioso até os que aguardam a “salvação” com o fim do mundo, justificando com isso o conformismo e imobilismo frente às mazelas da sociedade capitalista imperialista. Dentro da religião islâmica e outras, criam grupos terroristas que, de fato, não tem nada a ver com o Islamismo, e que são um atentado real à vida de milhões de seres humanos. São ferramentas úteis ao imperialismo para desenvolver um “terrorismo mundial” que se expressou já com os “Mujahedines” no Afeganistão na década de 80, organizados e bancados pela CIA, e em outros países da região do Oriente Médio e África. E logo colocam em prática essa estratégia mundial com a “Farsa Macabra” do atentado às Torres Gêmeas de Nova Iorque, no 11 de setembro de 2001. Tudo que se desdobra a partir dali afetará profundamente as religiões, particularmente a católica, que tem sua base social nos países mais desenvolvidos do sistema capitalista.

Com a morte de João Paulo II, em 2 de abril de 2005, a Igreja não conseguiu alcançar uma estabilidade interna pelas condições também flutuantes da sociedade no mundo. O Papa polonês deveria ser uma ferramenta de aliança e continuidade da política global do sistema capitalista, por isso o chamavam de “Papa Viajante”, porque tentava colocar a religião mundo afora como escudo da discussão social entre o capital e o trabalho, entre a luta de classes. Mas não obteve sucesso, porque a dialética da realidade da luta de classes já não podia ser contida, desviada e nem aplacada com aquilo de que “dos humildes é o Reino dos Céus”. A tecnologia da luta de classes se une à luta social diária das classes e começa então a surgir na Igreja a noção da NECESSIDADE DE MUDANÇA GERACIONAL QUE EXPRESSASSE E APONTASSE UMA SAÍDA A ESTA CRISE. O padre alemão Joseph Aloisius Ratzinger, o Papa Bento XVI, era para ser a expressão prática da queda do Muro de Berlim (“idiota e burocrático Muro de Berlim”, já diria J.Posadas). Mas este padre remendado pela crise interna da Igreja Católica não podia se manter por um longo tempo nisso. Neste momento o comando político da Igreja decidiu ir realmente ao fundo da questão e colocar o aparato mundial eclesiástico em funcionamento. Era necessário um representante que expressasse a condição do mundo, a saber: A crise mundial do sistema capitalista; A situação mundial de uma sociedade em desenvolvimento científico e cultural na qual estava predominando a luta de classes e o fortalecimento de religiões alternativas à Apostólica Romana.

A conclusão não era só colocar no Vaticano um “padre do terceiro mundo”, mas um que representasse uma política de estado para enfrentar esta crise e propor uma solução, seja ou não uma solução real ou final a ela.

O Papa Francisco (cuja função qualificamos mal, equivocadamente, nos primeiros dias ou horas de sua escolha, porque reagimos sem considerar nem sequer nossas próprias análises e textos prévios) avança, primeiro, reconstruindo o “aparato da Igreja”, dando prioridade aos problemas terrenos, “da paróquia”. E para isso se baseia em sua experiência em seu país natal, a Argentina.

Quando o Papa Francisco afirma “ESTAMOS EM GUERRA”, rompe o esquema da religiosidade da “Paz” como consígnia e como política. As pombas brancas de João Paulo II morreram em seu primeiro voo. O Papa Francisco está colocando que é imprescindível alcançar harmonia para conseguir uma Paz que hoje NÃO EXISTE. E nesse caminho ele ataca o quê? uma Nova Sociedade que está em surgimento? Uma sociedade, o socialismo, que foi denegrida e degradada pelas burocracias dos Estados Operários e da URSS durante décadas? NÃO! O Papa Francisco ataca o SISTEMA CAPITALISTA E O IMPERIALISMO, e aí se reencontra com um papel importante na história, que nós consideramos necessário resgatar como parte do progresso da luta de classes. Porque na luta pelo socialismo estão todas as formas de expressão cultural, religiosa e política que convirjam para MUDAR ESTA SOCIEDADE CAPITALISTA POR UMA NOVA SOCIEDADE, SOCIALISTA.

Por isso ele se dirige aos “jovens” que ficam reféns da TV e das redes sociais. Na realidade, o que Francisco coloca em debate é a necessidade de não perder o sentido do progresso humano. E aí rompe com a continuidade do papel anterior, de séculos, das Igrejas como “ópio dos povos”, porque, sem mudar sua natureza teológica, o Papa Francisco está apontando muito para a luta terrena pela vida, sem focar em que um ser superior vai decidir tudo, e sim que é a luta social, ou de classes, a que pode salvar a humanidade e a natureza.

Por mais que uma parte da Igreja Católica, e das outras, queira se utilizar desta crise final do capitalismo imperialista, está presente e pesa a realidade que impulsiona milhões de seguidores e mesmo de fiéis a mudar a forma de pensar e de agir. E por isso consideramos, nesta breve análise, que o Papa Francisco destapou a “panela de pressão” da História no Século XXI.

Por León Cristalli, Diretor-presidente da Fundação J.Posadas Internacional, e Diretor da Revista Internacional “CONCLUSIONES” (1ª parte – 31/07/2016).

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Publicado em novembro 11, 2016, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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