O TRIUNFO DE TRUMP É PARTE DA HISTÓRIA DA LUTA DO POVO DOS EUA CONTRA AS CORPORAÇÕES TRANSNACIONAIS

É A CRISE DO SISTEMA CAPITALISTA E EXPRESSÃO DA LUTA DE CLASSES E DA REBELIÃO DAS FORÇAS PRODUTIVAS: LUTA ENCABEÇADA NOS EUA PELOS MÁRTIRES DE CHICAGO DESDE 1887!!

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Por León Cristalli, Diretor da revista internacional “Conclusiones”, 9 de novembro de 2016.

O chamado “fenômeno Trump” é expressão de uma situação mundial do capitalismo prevista por Marx e Engels desde o Manifesto Comunista, ou seja, que se daria inevitavelmente em um período do desenvolvimento do capitalismo a união da luta de classes com a rebelião das forças produtivas. E que eles são os 2 elementos constitutivos da queda final do capitalismo. E este Donald Trump certamente está expressando isso de duas formas: primeiro, porque atua na crise dos EUA a rebelião mundial das forças produtivas, que foram substituídas pelas financeiras que só concentram o capital e uma de cujas expressões mais álgidas nos últimos tempos foi o estouro das bolhas financeiras, derrubando instituições bancárias que precisaram ser resgatadas em um novo 1929 pela ação “benfeitora” do Estado, fazendo o povo dos EUA pagar pela crise de sua direção corporativa; Segundo, porque o povo estadunidense, que não dispõe de formas políticas democráticas, nem sequer sindicais, independentes, de se expressar, identificou no “outsider” (personagem fora do jogo político tradicional) Trump uma via para derrotar o sistema político clássico, abertamente representado por Hilary Clinton, e inclusive também pelo próprio Partido Republicano, que aceitou a candidatura de Trump mas não o apoiou com força total. Assim, ele não era um genuíno representante desse sistema político que produz os quadros que o capitalismo precisa para articular uma cabeça política consciente.

A formação e constituição original dos EUA se deu sobre a base de diferentes estados, com interesses diversos, contrapostos uns aos outros, mas que tinham uma grande riqueza natural e mão de obra qualificada vinda da Europa. Eles tinham que se colocar de acordo porque eram abarcados pelo grande capital da Revolução Industrial que se desenvolvia na Europa. Essa condição foi a que gerou a situação prática, objetiva, para a formação dos Estados Unidos. Era o que Marx já analisava: o desenvolvimento das correntes das burguesias nacionais, com interesses capitalistas próprios, regionais e que produziram as “revoluções democráticas” do século XX.

Então, o enfrentamento que a constituição dos EUA gera contra a Europa, principalmente contra Inglaterra, mas também França e Alemanha, era porque eles constituíam a estrutura da Revolução Industrial, e também porque ente financeiro do capitalismo era na Bélgica. E isso fez com que se desenvolvesse um processo libertário com condições muito aptas para o desenvolvimento do valor da força de trabalho e da capacidade individual e coletiva de massas (não exatamente os nativos dos EUA), que impulsionava a formação de uma nação. E a Guerra de Secessão é a conclusão final de todo esse progresso em que o setor industrialista, no Norte (não por acaso, os republicanos, à época) se impôs aos escravistas do Sul (que eram os democratas).

O CAPITALISMO FINANCEIRO INVESTE ONDE TEM MAIS LUCRO

Agora isso volta a se expressar, mas depois de mais de 200 anos história de luta de classes, incluindo aí a experiência do primeiro Estado Operário da história, com a URSS etc… ou seja, agora, numa época na qual o capitalismo não pode mais representar uma perspectiva com interesses comuns às massas dos EUA, porque se concentrou em Wall Street e nas transnacionais como funcionamento lógico do sistema capitalista, que desenvolve sua capacidade produtiva ali onde o custo da mão de obra e da produção em geral é menor. Não só onde está a matéria prima mais acessível, como dizem alguns. Mas onde os outros fatores essenciais à produção de bens, serviços e tecnologia, se desenvolvem a mais baixo custo. Assim analisamos quando surgiu Trump, há um ano. Na realidade, se isso tivesse vindo pelo lado dos democratas, seria antagônico à história deles, como escravistas na Guerra de Secessão.

As condições colocadas para o capitalismo agora são extremamente conflitivas, porque o valor do dólar como moeda universal de troca no sistema capitalista será questionado, mas não porque diminuirá seu potencial, e sim pelo contrário, porque crescerá. Se aumentar o desenvolvimento das forças produtivas internas dos EUA o valor do dólar será totalmente valorizado, e isso entra em choque com o resto das burguesias no mundo. Hoje o dólar é uma moeda de troca, como poderia ser qualquer outra que fosse sustentada, como dizia Posadas, pelo grande potencial tecnológico militar do complexo industrial dos EUA. De modo que não foi Hilary Clinton, pessoalmente, a derrotada nas eleições. Quem perdeu foi Wall Street, as grandes corporações internacionais, os fundos “buitres” (abutres), e governos como o de Macri. É o maior golpe na já perdida hegemonia mundial do imperialismo, como publicamos no Voz Proletária de abril de 2015. Algo que temos que aprofundar nas análises é o motivo pelo qual os libertadores latino-americanos de fins do século XVIII e princípios de XIX tentavam construir repúblicas semelhantes à dos EUA e ao mesmo tempo combatiam-no em sua intenção de avançar e dominar a América Latina.

NOS EUA, PRODUZ-SE UM FATO REVOLUCIONÁRIO UTILIZANDO-SE DE UM INSTRUMENTO NÃO REVOLUCIONÁRIO: DONALD TRUMP

A debilidade do capitalismo pode ser medida claramente porque, assim como treme com o inesperado triunfo de Trump, também se questiona “o que fazemos?”

A debilidade do capitalismo pode ser medida claramente porque, assim como treme com o inesperado triunfo de Trump, também se questiona “o que fazemos?”

É neste contexto histórico que o resultado eleitoral (47% dos votos distribuídos pelos estados de forma que ficou com 279 votos do tal Colégio Eleitoral, 9 além dos necessários para ganhar) é a expressão deformada do curso da revolução social que avança no interior dos EUA e no mundo. É um alento aos povos em luta no mundo, pois desarticula as forças internas do imperialismo e abre uma nova etapa da luta de classes nos EUA. Um curso que não é, nem poderia ser, linear, mas sim dialético: debilita o centro político mundial nos EUA e seus (por enquanto) “sócios” da Europa e, com isso, permite um fôlego para países em disputa com os centros financeiros, como o FMI, e o Banco Mundial, ou a “troika europeia” que sufoca a Grécia e contra a qual o povo grego luta. Permite um ganho de tempo para todos que estão sofrendo com a política conservadora neoliberal financeira do sistema, em sua última etapa, que tem como expressão também os acordos tipo TPP, Tratado do Pacífico etc…

Então, é um erro não ir à fundo em uma análise científica sobre esta enorme crise, que, politicamente, é superior à de 1929/30 e à II Guerra Mundial. Encarar o resultado dessas eleições só como um problema eleitoral entre dois partidos do sistema, quando é justamente por fora dos dois partidos (Democrata e Republicano) que Trump surge, é não enxergar, ou não querer enxergar, que esta crise é a resposta objetiva da história, como Marx e Engels previram, que mostra a convulsão interna do sistema e anuncia claramente a proximidade da última etapa da sociedade capitalista. Nem este curso é linear, nem Trump nem o resultado de uma eleição com participação de menos da metade dos eleitores são a forma genuína de expressão da rebelião das forças produtivas (com direção de classe e revolucionária). Mas abriu as portas para uma retomada da história dos EUA para avançar, superando-a, e na qual o povo estadunidense em sua imensa maioria encontrou, neste curso, os aliados naturais nos povos em luta em todo mundo, principalmente as massas soviéticas, junto com uma parte de sua direção, como Vladimir Putin e o Exército Vermelho.

Por isso é preciso, autocriticamente, analisar com preocupação que a IV Internacional (Leninista-Trotskista-Posadista) vinha compreendendo só parcialmente o caminho por onde passa o curso da revolução permanente. Há textos nossos com análises sobre o significado de Trump logo que ele apareceu nas internas do Partido Republicano. Por outro lado, temos também a alegria de constatar que alguma Seção do trotskismo-posadismo conseguiu publicar alguns destes textos que hoje já são parte da história, não por nós mesmos, mas porque uma vez mais com León Trótski e J.Posadas, voltamos a “nadar contra a corrente”. Isso porque a pseudo-esquerda, os democratas pequeno-burgueses e os idealistas ou nihilistas de pensamento, aberta ou veladamente apoiavam Hilary Clinton, que era, na verdade, a continuidade do establishment, do “Consenso de Washington” e dos mentores do PLANO CONDOR II para a América Latina. Nós nos dispusemos a analisar essa relação, que não é nova, mas que agora aflora com força e se expressa desde o povo dos EUA que, com ferramentas nada próprias e muito menos genuínas, conseguiram dar um golpe gigante, histórico no sistema capitalista, em sua unidade política e de classe, utilizando a eleição de Donald Trump, que, reiteramos, não é instrumento próprio da classe explorada.

A CRISE MUNDIAL CAPITALISTA E A REVOLUÇÃO PERMANENTE

Neste momento, ao observar a repercussão mundial do resultado das eleições, com queda das principais bolsas de valores e alta do preço do ouro, que demonstram a aposta falida da oligarquia financeira transnacional na candidata derrotada, é que nós fazemos questão de lembrar da inteligência de Putin, que apontou Trump como um tipo que quebra as pernas da estrutura central do sistema corporativo-financeiro do neoliberalismo.

Neste momento, ao observar a repercussão mundial do resultado das eleições, com queda das principais bolsas de valores e alta do preço do ouro, que demonstram a aposta falida da oligarquia financeira transnacional na candidata derrotada, é que nós fazemos questão de lembrar da inteligência de Putin, que apontou Trump como um tipo que quebra as pernas da estrutura central do sistema corporativo-financeiro do neoliberalismo.

Agora vejamos, Trump é o defensor máximo do funcionamento clássico do capitalismo, mas para resolver essa visível contradição é preciso voltar atrás na própria história da formação e constituição do capitalismo nos EUA e, ao mesmo tempo, avançar para adiante na sua função. Então, Trump tem que analisar as reais perspectivas de seu futuro governo “industrialista e defensor do mercado interno” em um mundo imperialista em que a concentração transnacional determina a divisão internacional do trabalho. Por isso, nos anos 80, escrevíamos que a estratégia de desenvolvimento econômico de Deng Xiaoping para a República Popular da China com uma política combinada entre o Estado Operário e sua incorporação à divisão mundial do trabalho no mundo capitalista abria uma perspectiva às corporações multinacionais. Porque combinava atração de investimento transnacional com a desobrigação do capitalismo, como sistema, do desafio de resolver problemas sociais básicos ligados à dinâmica da acumulação capitalista: disponibilidade e custo de mão de obra, conflitos sociais, questões trabalhistas, saúde e moradia etc… A República Popular da China, por sua estrutura de Estado Operário suigéneris, assumia a responsabilidade por esses problemas que obstaculizam a longo prazo o desenvolvimento do investimento e direção capitalista transnacional imperialista. O Estado Operário chinês, sua direção política, garantiu às transnacionais uma paz social para produzir a baixíssimo custo, tirar seus lucros e vender no exterior nos valores do sistema capitalista internacional. Então não nos surpreendia o crescimento “a taxas chinesas”, com sua incorporação, nessas condições, ao mercado mundial capitalista. Isto permitiu às transnacionais acelerar o desenvolvimento, combinando alta produtividade do trabalho que gerava uma nova organização internacional da produção, com salários nominais rebaixados em comparação a seu valor nos países imperialistas. Isso tudo acelerou o desenvolvimento de um setor da economia chinesa, mas não resolveu os problemas intrínsecos do curso da revolução chinesa, em que uma grade parte da população ainda vive no campo em condições de vida muito atrasadas.

O presidente eleito dos EUA, Donald Trump, é a resposta da burguesia norteamericana a essas relações financeiras produtivas do capitalismo em sua etapa chamada “globalizada”, e à qual Marx e Engels já qualificavam como tal há 150 anos, porque o sistema capitalista, para existir, precisa dominar o mundo.

Em um plano similar (e oposto), do outro lado da moeda, nos EUA, se deu um retrocesso na sua condição de grande armazém industrial do planeta. Função que passou a cumprir principalmente a partir da II Guerra Mundial, com a expansão da industrialização interna resultado da política do New Deal de Roosevelt, aproveitando a eliminação da concorrência da Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Bélgica etc que estavam “de pires na mão”, destruídos pela guerra. Aí ocorreu um dos grandes crimes da burocracia e de Stálin contra o progresso da história porque, como analisou J.Posadas, e, antes, Trótski, no pós-Guerra estavam presentes as circunstâncias em que a luta pelo socialismo teria sido algo muito fácil, porque a Europa estava apta para a construção ou reconstrução socialista, não via Plano Marshall, como o imperialismo fez, investindo o que hoje seriam centenas de bilhões de dólares para afirmar o capitalismo na Europa. Porém, a burocracia stalinista negociou com o capitalismo, porque o avanço do socialismo pela Europa repercutiria em um processo de revolução política para dentro da URSS.

Hoje, Trump surge como uma “revolução política” na estrutura da tradição bipartidária, que revezava entre os dois partidos a direção política, mas não a condução da economia. Daí que Trump chega à Presidência já não só sem o apoio de seu Partido Republicano, mas com o aberto boicote dele. Chegou para apresentar outra condução da economia, e isso é o âmbito “revolucionário” que diz respeito à crise dos Estados Unidos. Crise que temos analisado (ver “Marx Sempre Teve Razão”, Revista CONCLUSIONES nº 23), afirmando que não podia acontecer o estouro de uma bolha financeira como a de 2008 sem que gerar resultados políticos imediatos e posteriores no povo dos EUA. O problema da migração, por exemplo, é uma política econômica que, no princípio, é favorável ao sistema capitalista, pela substituição do trabalhador nacional com seus direitos e conquistas trabalhistas pela mão de obra barata “importada”. Mas, no longo prazo, socialmente, significa uma redução do nível de vida de amplos setores sociais devido à competição exacerbada pelos postos de trabalho. Concretamente, gera redução do mercado interno e aumento da pobreza: nos EUA há 48 milhões de pobres nas estatísticas oficiais do governo. Esses segmentos sociais, em determinado momento, encontram a forma de se expressar

Então, como resultado desta contradição, que vira antagonismo pelas forças da Revolução Permanente, surge um Donald Trump. Ele não é nenhum doido, é um genuíno representante do sistema, mas que precisa do apoio do proletariado, das classes médias baixas, dos excluídos e marginalizados para defender e aplicar seu programa de reconstrução da economia estadunidense. Por isso especula e utiliza a questão da imigração. Temas como xenofobia, machismo etc são parte do circo do capitalismo, que cria esses preconceitos e depois usa politicamente contra adversários inconvenientes, sem nunca discutir o fundo da questão, que é o papel imperialista no mundo como órgão mundial de opressão e repressão, organizador e executor do Plano Condor II, por exemplo.

No caso da Argentina, depois da crise de 2001, surgiu Néstor Kirchner com uma política de desenvolvimento do mercado interno, de reindustrialização e reconstrução da “burguesia nacional”. Em 2016, Trump, em última instância, também quer desenvolver uma burguesia nacional com interesse no mercado interno, que é o que lhe dá sustentação e segurança interna frente ao curso da história da luta de classes e a etapa da revolução das forças produtivas nos EUA. Não partir desse ponto de análise é cair na imbecilidade da pseudo-esquerda e de uma parte da direita, que se limita ao impressionismo da aparência do fenômeno, ao terreno só do discurso, e não consegue (ou não quer) entender o que Trump, este político burguês norteamericano, representa: a grande contradição entre a imensa força e potencialidade que os EUA tem desde sua formação após a Guerra de Secessão, e a atual realidade econômica de um país quebrado pelo próprio processo financeiro de transnacionalização imperialista, que se concentra em Wall Street, e do qual Hilary Clinton era representante direta.

Por isso, para nós, Posadistas, o resultado das eleições nos EUA não é uma surpresa. Pelo contrário, escrevemos análises sobre os EUA e onde a crise ia estourar. Não tínhamos certeza da vitória de Trump por que os meios de poder podiam manipular a eleição, como fizeram nas internas democratas a favor de Hilary Clinton em detrimento ao pré-candidato Bernie Sanders, reconhecidamente socialista, que era a expressão genuína de uma saída de superação do próprio sistema, algo que claramente Trump não representa.

Nesta linha, ao observar a repercussão mundial do resultado das eleições, com queda das principais bolsas de valores e alta do preço do ouro, que demonstram a aposta falida da oligarquia financeira transnacional na candidata derrotada, é que nós fazemos questão de lembrar da inteligência de Putin, que apontou Trump como um tipo que quebra as pernas da estrutura central do sistema corporativo-financeiro do neoliberalismo. É importante reforçar isso, não porque Trump seja anticapitalista ou vá arriscar seu capital no mundo colocando-o à disposição da “sociedade global” , mas porque vai tentar encontrar uma forma de capitalismo em base ao desenvolvimento do mercado interno, em base ao potencial de autofinanciamento do país. Isso já está acontecendo no caso do petróleo, com o aumento da produção interna mediante novas técnicas, e Trump planeja fazer isso em muitas outras áreas com a aplicação da tecnologia informática, cibernética etc… para o desenvolvimento da indústria nacional. Porque, nos últimos 20/30 anos, os EUA perderam a força, o impulso ao desenvolvimento originário, para benefício das corporações transnacionais, que baixaram seus custos ao levar a produção para fora do país, usufruindo da ditadura do dólar, o que, no fim das contas, levou à crise atual.

Esta crise que resulta no triunfo eleitoral de Trump é a expressão da debilidade do sistema capitalista mundial, e confirma que vive sua etapa final, como previu Vladimir Ilich Ulianov Lênin.

O CAPITALISMO NO MUNDO ESTÁ APAVORADO. A PSEUDO-ESQUERDA E A PEQUENO BURGUESIA LIBERAL TAMBÉM.

Esta nova etapa da luta de classes também derrota as teorias acomodadas dos “tíbios” segundo as quais “a mídia impõe governos e dirige o mundo”

Esta nova etapa da luta de classes também derrota as teorias acomodadas dos “tíbios” segundo as quais “a mídia impõe governos e dirige o mundo”

A debilidade do capitalismo pode ser medida claramente porque, assim como treme com o inesperado triunfo de Trump, também se pergunta “como nos acomodamos a esta mudança no governo?”. Governo que nem representa de fato o verdadeiro poder nos EUA, maior potência capitalista hoje. O sistema se pergunta como se “adaptar” para manter alianças, ou seus guarda-chuvas de apoio como os governos de Temer, no Brasil, Macri, na Argentina, Rajoy, na Espanha e a própria Merkel, na Alemanha, ou na Inglaterra, em que o Brexit quebrou as pernas de uma União Européia que é das transnacionais e não dos povos. Tudo isso não quer dizer que os EUA deixarão de cumprir um papel central na crise do sistema e no enfrentamento de classes e na competição mundial de “sistema contra sistema”, na oposição aos BRICS, ao Banco Asiático, a um Mercosul nacionalista etc… Mas o fato é que essa burguesia norteamericana que Trump representa quer “arrumar a casa” frente à crise mundial dos seus vários “quintais” ao redor do mundo.

Mas esta nova etapa da luta de classes também derrota as teorias acomodadas dos “tíbios” segundo a qual “a mídia impõe governos e dirige o mundo”. Sem dúvida que a mídia é uma ferramenta muito bem utilizada pelo capitalismo, mas ele consegue manipular a informação e induzir a opinião não por sua capacidade, e sim pelas debilidades das direções da classe trabalhadora. Direções políticas, sindicais, sociais e culturais débeis, que não tem confiança na capacidade do povo e no critério de classe dos trabalhadores. É aí que a política do assistencialismo e populismo reformista do capitalismo possibilita arejar o edifício construído pelo sistema.

Trump utilizou os poucos meios de comunicação que se animaram a apoiá-lo (nos EUA a mídia declara abertamente quem apoia), em sentido contrário a essa concepção paternalista dos “tíbios” e reformistas socialdemocratas: partindo de uma posição política conservadora, capitalista, baseada na origem da formação dos EUA (principalmente a guerra civil entre norte Republicano industrialista, e o sul Democrata escravista), Trump chutou o balde de uma concepção política e econômica e, mesmo sem mudar um centímetro sua ideologia capitalista, vai fixar como referência o caráter nacional da origem do capitalismo nos EUA.

Agora, isso, há 200 anos, era natural ao desenvolvimento das forças produtivas da época da revolução industrial na Europa e suas colônias, entre elas as do outro lado do Atlântico. Era a potência que gerava uma forma evolutiva e concentrada “através da maquinaria e da revolução das roldanas” (LC 1990), que gerava produtividade concentrada e mais-valia com a força de trabalho humano. Hoje essas condições são inversas, porque as forças que deram aos EUA em meados do século XX uma capacidade hegemônica mundial foram desaparecendo, porque deixaram de ser produtivas de bens e serviços, passando a ser baseadas na concentração financeira: em segundos, o capital imperialista “dá lucros” astronômicos sem produzir nada além de movimentos virtuais dos capitais.

Trump se lança contra isso, mas não em defesa de uma nova sociedade socialista, equitativa, solidariamente harmoniosa. Ele defende uma reorientação da função do Estado Nacional americano que tem se comprometido permanentemente como sistema mundial, como polícia do mundo e diretor, desde Wall Street, das finanças mundiais, e não como “nação”. Por isso não produzia nem gerava emprego nos EUA, e sim internacionalmente onde as corporações tivessem mais lucros. Isso destruiu em grande parte o enorme potencial do produto dos EUA e condenou o proletariado e camadas médias da população estadunidense a um permanente retrocesso no nível de vida.

Esta condição ao interior dos EUA, como em sua relação com o mundo, não podia seguir assim. Aproximava-se uma rebelião da luta de classes e das forças produtivas nos EUA. Para barrar isso, surge Trump com uma política “lógica” desde o sistema capitalista primário, que faz com que este empresário capture a candidatura através do Partido Republicano e chegue ao governo. Agora, veremos se ele conseguirá se manter no governo com essa política, ou se será dirigido desde o poder estrutural já solidamente instalado nos EUA, ou se triunfará de mil maneiras a concepção de “polícia e centro econômico do mundo” que já exerciam os governos pelos tratados de livre comércio, do “Consenso de Washington”, do Plano Condor, com a intervenção militar aberta no Iraque, Líbia, Síria etc… A experiência de Kennedy, que terminou em seu assassinato, ou a de Jimmy Carter, ambos pelo lado Democrata, em outros tempos, mostram que o que comanda os EUA não é o governo político, mas sim o complexo “financeiro-bélico-industrial transnacional”. É o chamado “Círculo Vermelho”, onde se tomam as decisões de fato.

Donald Trump vem dessa classe e dessa estrutura, e desde esse ponto rompe os esquemas lineares estabelecidos para tentar “voltar às estruturas” do sistema capitalista. Propõe recriar uma “burguesia nacional norteamericana” cujo motor não é o mundo – ainda que não o descarte – e sim a potência dos EUA e seu amplo mercado interno.

Esta condição explica por si mesma que se trata de uma tentativa natural do sistema capitalista, na fase (e no país) mais desenvolvida em sua história, de renascer quando está morrendo no mundo todo, em agonia depois de seu esplendor de séculos passados. E isso não só na economia, mas também na ciência, na cultura etc, só não nas relações sociais.

TRUMP E AS RELAÇÕES DOS EUA COM O MUNDO

Nestas condições do curso da luta de classes, da qual Trump não pode fugir, consideramos positivo o desenvolvimento de um setor próximo a Putin que tentar se orientar através do marxismo – mesmo que de modo parcial e deformado – para tentar prever o curso da história e agir de maneira consequente. Principalmente quando se afirmou – via Maxim Krivelévich, chefe da comunidade de especialistas da Escola de Economia da Universidade Federal do Extremo Oriente russa –, antes das eleições, que Hilary Clinton era apoiada pelo capital financeiro, enquanto Trump tinha por trás de si o capital industrial. “O capital financeiro precisa de um dólar caro, petróleo cru e matérias primas baratas, enquanto o capital industrial requer exatamente o oposto: um dólar barato para exportação e para o desenvolvimento da chamada substituição de importações”. E também quando qualificou de “pseudocientíficas” as explicações de que a baixa dos preços de petróleo se deviam ao aumento das reservas do óleo cru e das importações. “Não se deve levar a sério os argumentos que, a posteriori, os representantes do mercado financeiro dão para explicar a queda. Parece ser um tanto forçado quando os comentaristas tentam freneticamente dar alguma razão objetiva quando os preços (do petróleo cru) já tinham baixado. Tudo é muito subjetivo. Sempre justificam com a eleição presidencial. Não há nada mais subjetivo que isso”.

Como a IV INTERNACIONAL Posadista vem defendendo, a motivação da tendência de queda nos preços de petróleo nos últimos 5 anos é pseudoeconômica. A perda de hegemonia do imperialismo se soma à crise interna do sistema e das necessidades objetivas que lhe são colocadas pela rebelião das forças produtivas. E essas forças são as que, por cima da direção do sistema, pesam e geram as crises atuais, situação da qual o triunfo de Trump é uma expressão muito concentrada. Por isso o “dólar alto” não é um divisor de águas entre o capital financeiro e o capital industrial. O que ele marca é uma contradição entre a oligarquia financeira transnacional (na teoria leninista de imperialismo, oligarquia financeira é a fusão ou articulação de interesses entre os capitais oligopolista/monopolista da indústria e os grandes bancos) de um lado, e, do outro lado, o capital não-monopolista, ligado ao âmbito econômico nacional. O camarada J.Posadas mostrou, em seus textos, que é necessário entender o desenvolvimento das contradições intercapitalistas para definir estratégia e tática adequadas para resolver o problema principal: a contradição antagônica entre capital privado e trabalho mundialmente socializado. E isso é o que a maioria das direções, inclusive as da classe explorada, não analisam ou o fazem de forma superficial, mudando sempre de posição e desarmando a classe trabalhadora.

Considerar possível o desenvolvimento de um “capitalismo bom” (Voz Proletária, nº 2003) era criar uma armadilha não ao dólar, mas à luta de classes em sua estrutura, porque diminuía a capacidade de disputa da classe trabalhadora com o poder do capitalismo. E por isso os primeiros anos do governo do companheiro Néstor Kirchner, na Argentina, foram de um “governo em disputa”, que tinha que sustentar o sistema, tentando gerar uma “burguesia nacional” inexistente, porque já tinha provado o mel de não ser sujeito da história, como classe, mas sim objeto de acordos com as transnacionais imperialistas que lhes garantiam a condução política (Consenso de Washington, antes, Plano Condor etc…) enquanto a condução de fato do país era feita pelas transnacionais financeiras imperialistas.

Esta condição que, na forma, parece similar ao que propõe Trump, é bem diferente na estrutura, porque os EUA, como potência mundial econômica, produtiva e militar, que surge radiante depois da II Guerra Mundial, tem componentes internos em relação à potencialidade produtiva que nem Argentina nem outro país do mundo tem. Nem mesmo a China Popular, Europa ou Japão podem superar essa relação. Só os Estados Operários, a URSS, e a China daquela época podiam competir com ele (isso era parte do que J.Posadas qualificava de “concorrência entre sistemas”).

O reconhecimento implícito da imprensa imperialista e de notórios líderes mundiais do sistema acerca do “triunfo de Putin” na eleição de Trump, na realidade, expressa o enorme temor ao povo soviético e à própria URSS latente, que estão totalmente vigentes na história, enquanto eles, o capitalismo imperialista, está com o pé na cova.

O reconhecimento implícito da imprensa imperialista e de notórios líderes mundiais do sistema acerca do “triunfo de Putin” na eleição de Trump, na realidade, expressa o enorme temor ao povo soviético e à própria URSS latente, que estão totalmente vigentes na história, enquanto eles, o capitalismo imperialista, está com o pé na cova.

Donald Trump não é um revolucionário, mas produz um processo revolucionário nos EUA e no mundo. Se não existisse terra fértil, nada crescia, e Trump aproveitou essa condição natural. Tsipras e o Syriza, na Grécia, ganharão com esta nova relação mundial, enquanto Michel Temer seguirá na corda bamba e será prejudicado, como Macri, na Argentina. Trump não vai fazer a revolução socialista, mas vai voltar-se para dentro para “voltar aos princípios do sistema de 1865”, como analisamos há muito tempo. Reafirmamos: Trump vem para barrar uma guerra mundial quando declarou que “a política de Clinton na Síria pode causar um conflito com a Rússia e a III Guerra Mundial”, ou quando antecipou que “os EUA deixará de mexer com regimes estrangeiros”. Ele faz isso em nome de um sistema capitalista em desvantagem, que ele vai tentar relançar para fazê-lo florescer de novo.

Toda a parafernália midiática, em cima da qual ele próprio especulou e “surfou” durante a campanha eleitoral, acerca de sua xenofobia, sobre a criação de um Muro (que, aliás, já existe e foi construído por governos Republicanos e Democratas), o desrespeito à mulher etc… vão desaparecer quando ele entrar na Casa Branca, porque não precisa mais acariciar os baixos instintos dessa parte conservadora do eleitorado. O governo Trump vai tentar pôr em prática esta missão impossível de remoçar o capitalismo nos EUA e desenvolver um novo papel no mundo. E isso só vai potencializar socialmente o questionamento interno ao imperialismo (lembremos das manifestações de dezenas de milhões nos EUA contra a guerra do Vietnã, das críticas às ações no Oriente Médio e às agressões a Cuba etc…). É que para voltar, hoje, ao desenvolvimento industrial com mercado interno nos EUA, ele terá que mudar relações mundiais que são os pilares da enorme estrutura de poder dentro dos Estados Unidos e que tem seus fundamentos ao redor do planeta. E isso não se pode mudar apenas com decisões políticas, mas com decisões de âmbito social.

Inclusive não descartamos a possibilidade de desdobramentos com resultados parecidos com o de Kennedy, porque o imperialismo financeiro não vai deixar Trump passar ileso com sua política que o desarma internamente e mundialmente. Isso forma parte de um curso muito desigual e combinado, sem dúvida, mas que abre as portas para a volta do Estado Operário na Rússia de base social soviética. Também cria condições para que China Popular reflita sobre seu desenvolvimento capitalista baseado nas empresas transnacionais, em que o Euro assume o papel de avalista do Dólar. E neste sentido se deve fazer uma reavaliação profunda das políticas nacionais, das Frentes Únicas e alianças políticas, porque a mudança de estratégia do governo dos EUA, como os investimentos ou o aumento da taxa de juros nos EUA, vai repercutir dentro dos países. A crise que vai se expressar no mundo com a política externa do governo Trump estimulará os setores nacionais de cada país a proporem uma política nacionalista, mas que, sem a intervenção dos trabalhadores, sindicatos, partidos do campo nacional, popular e revolucionário, pode gerar correntes de direita, como está acontecendo na Europa. Neste curso, achamos que os camaradas cubanos terão que redefinir a política a ser desenvolvida, porque Trump não vai continuar com a ação das transnacionais, de investir bilhões de dólares em Cuba para tentar destruir por dentro a revolução cubana (estratégia que já fizeram na ex-URSS da burocracia, através dos Gorbachov, Yelstin etc…).

Esta eleição de Donald Trump é a mais importante ação política e social do povo estadunidense depois da que impôs, desde às ruas, a retirada do imperialismo do Vietnã. Nós acreditamos que se desataram forças interiores que não poderão ser submetidas por nenhuma ação dos governantes. Reiteramos: não é a força de Trump, mas a “panela de pressão” que o próprio sistema destapou. Como a ditadura cívico-militar na Argentina quando fez a encenação da recuperação das Ilhas Malvinas achando que ia se fortalecer e sair por cima, mas apenas selou sua derrota final.

Em nossa opinião, Trump não muda a ideologia política do capitalismo, mas, para salvá-lo internamente, terá que tomar medidas que avançam direto a uma revolução na economia, política e cultura, apesar de seus próprios objetivos. Os povos do mundo perceberam esta debilidade do imperialismo e as direções terão que agir em concordância com este curso.

Abriu-se um novo curso na luta de classes e na rebelião das forças produtivas no rumo da construção de uma Nova Sociedade: O SOCIALISMO.

León Cristálli –  9 de novembro de 2016

Para ler mais sobre o tema, seguem links de artigos do autor prévios ao resultado das eleições.

EUA, Eleições e Crise do Imperialismo, parte I (em português, publicado no jornal Frente Operária 501)

EUA, Eleições e Crise do Imperialismo, parte II (em espanhol)

EUA, Eleições e Crise do Imperialismo, parte III (em espanhol)

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Publicado em novembro 25, 2016, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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