A QUESTÃO MILITAR BRASILEIRA NA ATUAL CONJUNTURA

O único protagonismo possível das Forças Armadas (FFAA) é ao lado dos direitos do povo brasileiro e do respeito à soberania das nações

Nas últimas semanas, as FFAA brasileiras têm sido instigadas a intervir em um país vizinho e amigo que vive um profundo processo de transformações históricas, com recorte estrutural, socioeconômico e político, iniciado há 20 anos pelo Tenente-Coronel Hugo Chávez.

Cedendo a pressões geopolíticas ingerencistas, o governo brasileiro reconheceu um autoproclamado governo de oposição na Venezuela. Com essa medida, inédita na história da diplomacia brasileira, o Brasil já entrou perdendo no processo de articulação geopolítica sobre a situação venezuelana. Ou seja, o gigante latino-americano encontra-se submetido a interesses estadunidenses em um contencioso envolvendo um país vizinho!

As pressões ingerencistas são inclusive verbalizadas por integrantes do governo brasileiro sem nenhuma preocupação em esconder seus compromissos com interesses avessos às tradições de convivência pacifica e respeitosa que marcam a história da diplomacia brasileira. Não casualmente são vozes que apoiam privatizações e a entrega da previdência brasileira para os banqueiros.

O fato é que, no processo pré-eleitoral (desde 2015) e eleitoral do ano passado, os militares foram chamados a “tomar partido” na disputa política e se alinhar a um projeto de precarização de mão-de-obra, de privatizações e de favorecimento ao mercado financeiro e de alienação dos recursos naturais (Amazônia), minerais e energéticos. Enquanto fica cada vez mais claro que vale o Estado brasileiro ter o comando direto e soberano dessas áreas estratégicas do ponto de vista econômico, social e ambiental. Mariana e Brumadinho nunca mais!!!

A situação é muito grave, com o comprometimento das Forças Armadas com um “não-projeto”, ou “contra-projeto” submetendo-a a uma atuação de baixo perfil dentro e fora do Brasil, legitimando um governante com perfil familista como estratégia de poder e de rasa visão de estado nacional, frente a uma situação geopolítica e de uma conjuntura mundial que não comporta expectativa de vultosos investimentos que venham dos EUA. De fato, Trump opera com outras prioridades na agenda econômica (e por isso está engolfado em uma crise aguda de desestabilização interna) e o Brasil só tem a perder se as FFAA ficarem sob o comando da US Army.

Foi exatamente nessa direção que o intervencionismo neocolonialista tentou avançar, comprometendo o Exército Brasileiro (bem como o da Colômbia e outros países do chamado Grupo de Lima) com uma suposta ajuda humanitária a partir da fronteira com a Venezuela.

Frustrado o operativo, tanto na Colômbia como no Brasil, essa plataforma humanitária esteve perto de funcionar como cabeça de ponte provocativa que justificasse uma invasão da Venezuela. O que não se concretizou porque especialmente as FFAA do Brasil se recusaram ao papel de aríete contra um país vizinho e ligado por laços históricos de amizade.

No 74º aniversário da vitória da FEB em Monte Castelo e 66º da vitoriosa campanha “O Petróleo é Nosso”, as FFAA têm o desafio de reafirmar seu caráter nacionalista e democrático

A América do Sul é plena de momentos históricos em que as FFAA, atuando como parte inseparável do povo, protagonizaram projetos nacionalistas e populares. São exemplos os governos do General J.J. Torres, presidente da Bolívia (1970-71), do General Velasco Alvarado, presidente do Peru (1965-75), assim como dos oficiais Juan Domingo Perón, na Argentina (1946-55 e 1973-74), e Ibañez del Campo, no Chile (1927-31 e 1952-58.

O combate ao nazi-fascismo nos campos de batalha da Europa…

Lembrando esses exemplos continentais, e na contramão das pressões neocolonialistas na América do Sul, só resta ao Brasil a alternativa de um desenvolvimento endógeno, com financiamento sustentável, direcionado a obras de infraestrutura e inovações tecnológicas e tecnologia militar, motores do desenvolvimento de países da esfera dos BRICS, incluindo o fomento à indústria da construção civil, estatal, que dê conta, não só das obras de grande porte, mas também de projetos de largo alcance social como o Minha Casa Minha Vida, em parceria com as associações autogestionárias das próprias comunidades assistidas.

… e a campanha pela criação da Petrobrás marcaram a história das nossas Forças Armadas

Impulsionar um projeto de desenvolvimento nacional só é exequível com o apoio popular organizado, no campo e na cidade, combinado com um programa de segurança alimentar e ambiental que assegure a preservação da Amazônia e do aquífero guarani, em benefício das condições de vida da população brasileira. O financiamento desses projetos estratégicos pode vir das reservas internacionais, do imposto sobre grandes fortunas, sobre lucros e dividendos e da exploração do pré-sal.

Enfim, projetos produtivos com incorporação intensiva de mão de obra, garantindo a formalização das relações de trabalho e o aumento da base da contribuição fiscal e previdenciária. De modo que a arrecadação da seguridade social garanta recursos sob gestão dos bancos públicos e, por outro lado, aumento da base de produção e consumo, com o condão de prover recursos fiscais regulares e sustentáveis, capazes de cobrir o déficit fiscal primário, combinado com o equacionamento da dívida pública, pondo um fim à drenagem de recursos orçamentários para a ciranda financeira.

A disjuntiva colocada às FFAA está em cumprir o papel idealizado pelo neocolonialismo, de “bucha de canhão”, protagonista da opressão ao povo para garantir a “paz dos cemitérios”, ou de parceira do povo na construção a paz com desenvolvimento social e soberania nacional.

ALCA ou BRICS

Este ano o Brasil assume a direção dos BRICS, que é uma aliança de países gigantes que respeitam a soberania dos povos e nações. Algum general já fez declarações à imprensa sobre a suposta hegemonia das ideias liberais estadunidenses dentro das FFAA brasileiras. Isso tem lógica, na medida em que nos remetemos às origens do capitalismo dos EUA e do liberalismo naquele país, sob a direção de Abrahão Lincoln, que poderia até ir ao encontro do que propõe Trump para a economia do país, que é volta-la para o desenvolvimento dentro de suas fronteiras, secundarizando intenções globalizantes. Mas é essa justamente a contradição que hoje vive os EUA: ¿como priorizar o mercado interno e sua geração de empregos para os trabalhadores dos EUA e ao mesmo tempo reduzir a drenagem de recursos orçamentários para a indústria bélica e suas correspondentes ações de dominação geopolítica global, ou seja, a vocação imperialista como corolário do capitalismo tricentenário…?

Aliás, uma questão que ronda os meios diplomáticos mundiais é o porquê de os EUA não dispensarem à Venezuela o mesmo tratamento negocial e diplomaticamente – minimamente – respeitoso dispensado hoje à RPD Coreia. A condição de vizinho “incômodo” é determinante para tamanho disparate no tratamento à Venezuela?? A tradição do pós-II Guerra da diplomacia brasileira, incluindo o período dos governos do Marechal Castelo Branco ao do General J.B. Figueiredo, jamais comportaria tamanha discriminação!!

Concretamente, o Brasil tem alternativa ao status atual, de ficar sem protagonismo sob o comando militar, financeiro e econômico dos EUA. Acordos amplos poderão ser formatados e implementados no âmbito dos BRICS, como estradas de ferro, energia nuclear etc, abrindo espaço para um projeto de desenvolvimento sustentável, popular e soberano, em direção à vocação das Forças Armadas. Mas isso só é factível se sustentado em aliança organizado com o povo brasileiro e suas organizações representativas.

Assim, a unidade com o povo e a Atuação soberana em blocos contra hegemônicos permitirá solucionar problemas em comum, sendo o único caminho para as FFAA cumprirem sua função de garantidoras não só da integridade territorial, mas também da economia e da política. É preciso construir uma Pátria para todos, inclusive para resgatar o valor de símbolos pátrios como representantes da unidade do povo, tal como a bandeira brasileira, que certas elites usam como adorno, mas esvaziada de seu sentido nacional pelo entreguismo e submissão às potências estrangeiras. Países sob hegemonia dos EUA não precisarão de Forças Armadas, que nesse status geopolítico não cumprirão nenhuma função relevante face à diluição do estado nacional.

24 de fevereiro de 2019.

Ordem democrática e soberana sim, hostilidade e ditadura não!!!
Integração sim, invasão não!!!
Paz e amizade sim, guerra não!!

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Publicado em fevereiro 28, 2019, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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